ExtraLibris: Compondo Exposições Conectadas

20 anos para voltar ao mesmo lugar.

1996 foi o ano em que comecei a acessar a internet.

Uma pessoa que cresceu em bibliotecas passou a viver em um mundo em que o acesso a inteligência humana não era apenas mediado pelos livros e periódicos.

As listas de discussão de ciência e filosofia nas universidades eram um exemplo de como seria possível acompanhar o ciclo de vida das ideias, e como as conversações entre pesquisadores poderiam gerar novas oportunidades de pesquisa, publicações e até aumentar o interesse pelo que havia sido publicado.

Descobri que existiam orientações filosóficas que moldavam a forma que as pessoas se organizavam para publicar e produzir novos conhecimentos. Não apenas áreas e categorias para o conhecimento, mas formas diferentes de pensar e representar o mundo - para além das disciplinas formais ensinadas na escola.

Interessei-me pelo movimento humanista. Um movimento que tentava uma aproximação entre as ciências e humanidades compreendendo que a busca pelo saber é um característica humana - e a internet chegou para mudar tudo isso.

No ano de 2001 após ler os primeiros entusiastas (os Digerati) criei um site para organizar o conhecimento de acordo com a perspectiva do movimento. Peguei os livros que eram recomendados, montei listas de sites indicados e inventei um nome pretencioso: a rede do conhecimento. O mais engraçado foi apresentar o site para outros calouros de biblioteconomia no primeiro dia de aula no auditório em 2002.

Apenas no ano anterior havia descoberto que existia uma profissão que era sobre tudo isso. Formada por profissionais que tinham um entendimento de como a humanidade pensava, pesquisava e registrava tudo, e ainda tentava democratizar o acesso a inteligência através das bibliotecas. Ou melhor, na verdade havia conhecido antes, mas pensava: Fazer faculdade para organizar os livros nas estantes? Que pena. Estava completamente enganado.

Ironicamente o meu emprego nos anos anteriores (1998 - 2000) era com o que poderia ser chamado de Gestão da Informação. Trabalhava na Telerj Celular, que viria a ser a Telefônica Celular (atualmente Vivo) envolvido com os processos de criação de documentação para capacitação dos agentes multiplicadores para habilitação de telefones celulares nas lojas. A minha função era de assistente administrativo para o setor de recursos humanos, na área de treinamento da organização - na verdade eu fazia um pouco de tudo e assumia diversos processos do RH. Todo o setor de Recursos Humanos estava em uma fase de transição após a privatização. Com a implementação dos sistemas de qualidade e gestão por processos, era possível simplificar e automatizar procedimentos técnicos burocráticos. Os funcionários públicos concursados passaram a ser convidados a se retirar da organização. O RH criou um programa de talentos, para formação de novas lideranças - cheguei a trabalhar ajudando na criação das apresentações para o programa, mas eu mesmo, jovem, não fazia parte do perfil.

Gostava de trabalhar ajudando as pessoas, para além dos processos - o mais irônico ainda é que o meu perfil no séc.XX é justamente o que entrou na moda logo depois no séc.XXI, pois como a administração e gestão virou um commodity - deixou de ser um diferencial competitivo repetir o que qualquer aluno em qualquer curso universitário da Estávio saberia.

Resolvi deixar esta vida corporativa - finalmente poderia seguir a minha vocação, de aproximar as pessoas para algo maior do que informação e processos. Nada de empresas de telecomunicações, bancos, suporte técnico em informática...

No ano seguinte prestei vestibular para biblioteconomia.

Mas o que acabou acontecendo é que a área estava passando por uma crise de identidade. A pessoa que entrou em um curso pensando no valor das bibliotecas e na capacidade humana de compartilhar em rede - estava sendo formada para usar a tecnologia não para as pessoas, mas para disseminação da informação.

Os trabalhos acadêmicos, os discursos, a comunidade, aos poucos vão desconstruindo a sua vivência e o convencendo de que como profissional da informação, gestor de unidades de informação - na verdade não era para você ter saído daquela empresa meu filho, você já trabalhava com o que estamos tentando formar você.

Mas a função dos sistemas de qualidade é justamente tornar obsoleto qualquer profissão que envolva a necessidade de mediação da informação, porque vocês querem me colocar de volta neste mundo? Se tivermos processos bem documentados e criarmos um sistema para simplificar o processamento técnico. Imaginam que inventam por exemplo uma formação de técnico em biblioteconomia? Imagina se no futuro começamos a falar em informação e vamos fazer o que? Passar a treinar pessoas para usar softwares? Usar mecanismos de buscas das empresas? Porque elas próprias não criam seus programas de treinamento? Precisamos ser formados para usar softwares de terceiros? Ou pior ainda, usar softwares em acesso aberto controlados pelo governo?

Então mas e agora? Quem esta formando os bibliotecários?

A ExtraLibris surgiu em 2004 como uma proposta de formação de uma rede entre estudantes para pensar a biblioteconomia, ou a dimensão humanista da biblioteconomia e como a cultura digital poderia oferecer novas oportunidades para a área.

Como estudantes era difícil avançar de forma coerente, sem recursos, e com a latente necessidade de conseguir uma ocupação profissional cada um de nós seguiu o seu caminho.

Mas descobri, que sem colocar nomes, havia resolvido a discussão sobre qual seria o nome que representaria este novo profissional bibliotecário, para além dos livros e bibliotecas... era tudo o que sempre estava trabalhando. A relação entre as pessoas, e os livros e a formação de comunidades digitais.

Descobri que estava trabalhando em uma vertente da gestão do conhecimento anti-gestão do conhecimento (sem processos, sem engenharia, focada nas pessoas). A minha discussão com os engenheiros era: vocês estão chamando isso de gestão do conhecimento, mas quando o que estão vendendo são softwares e processos? Isso é engenharia de produção. Pedi demissão no meio de um grande projeto para a Petrobras.

10 anos depois a consumerização da tecnologia da informação tornou inevitável a manutenção do discurso baseado na mediação da informação e em modelos de governança tradicionais. A área de Gestão do Conhecimento - pelo menos da forma que era pratica - perdeu o sentido.

Estou voltando para 1996: a era de ouro da internet.

Adotando uma nova metodologia e plataforma.