Durante a minha formação dediquei minhas pesquisas e exercicio profissional a compreender qual seria o papel da Biblioteconomia na sociedade em um mundo sem Bibliotecas. Durante esta busca, acabei desencantando-me da academia, saí da Biblioteca Especializada em que trabalhei de 2004 a 2007 e comecei a trabalhar com o que acredito ser uma espécie de profissional pós-biblioteconomia.
O que seria este pós-bibliotecário? É um profissional que percebeu que as Bibliotecas são apenas um meio, uma instituição importante que tem por objetivo garantir e preservar a autonomia e intelectual e estimular a colaboração e a formação de comunidades entre os cidadãos. Independente da existência ou não das Bibliotecas, enquanto este ethos for preservado, o importante não será perdido e a profissão continuará encontrando novos caminhos para justificar a sua existência na sociedade. Esta é a minha interpretação sobre o “preservar o cunho liberal e humanista da profissão, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana” no código de ética profissional do Bibliotecário.
De certa forma a Biblioteconomia no Brasil perdeu-se. Na década de 90 ela teve a chance de reinventar-se, mas seguiu um caminho triste. Um dos elementos representativos é a introdução do conceito de Unidades de Informação, como forma de ampliar o escopo de atuação dos Bibibliotecários e Documentalistas – mas que representa técnica sem ethos. Muitos perderam-se (ou encontraram-se) em temas e tendências como Gestão da Informação, Gestão do Conhecimento e Arquitetura da Informação. Alguns mais interessados começaram a buscar a Biblioteca 2.0 – até eu durante a graduação – mas restringiram o buzz 2.0 a ferramentas.
Qual seria o futuro para o Bibliotecário sem os livros impressos? Eu realmente não posso prever em definitivo, mas irei propor algumas alternativas, e apresentar um pouco do caminho profissional que segui, na segunda parte deste post.
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Minha alternativa para as bibliotecas sem livros impressos é o que chamo de Biblioteca peer-to-peer (compartilhamento, criatividade, cultura, downloads, streaming), mas isso ainda está longe, afinal as preocupações do momento são outras, como tu já sabe.
Olá Fabiano,
Realmente é uma questão delicada…Acredito que a biblioteca como várias aréas do conhecimento estão sofrendo alterações desde a invenção e propagação da Web e automaticamente isso acaba modificando certos conceitos e aplicações na biblioteconomia. Referente o título, ha muitas controvérsias, e acho que vai ter que amadurecer muito ainda…porém na prática, vemos que desde a década de 90, grandes alterações foram incorporadas quase que automaticamente.. por exemplo, os buscadores de sistemas de bibliotecas, inclusão de blog, faq, e_mail, arquivos digitais (repositórios) com possibilidade de download, e até a inclusão de comentários nos catálogos das bibliotecas, ou seja a interatividade com o usuário… São avanços que considero realmente importante e que modificam metódos tradicionais além de garantir o espaço para a área ..Grandes acervos históricos estão sendo digitalizados e disponibilizados.. Podemos ter em casa a “A Carta, de Pero Vaz de Caminha”, por exemplo..Isso é um novo modelo..que mesmo de forma inconsciente esta modificando a área e os profissionais e tavéz até caminhando para um novo modelo de biblioteca sem espaço físico por exemplo como o projeto Google… Lembrando que mudanças de paradgmas e cultura possuem um processo lento e mesmo assim particurlamente acho estamos aceitando muito bem..
Frederico, a experiência peer-to-peer não precisa do Bibliotecário enquanto intermediário no processo de troca. Então o meu questionamento é sobre qual é o seu papel enquanto intermediário (animador) nos dias de hoje.
Anelise, a incorporação de novas tecnologias é um processo natural. A questão é que estas novas ferramantas (repositórios, bibliotecas digitais, arquivos), são uma aplicação do escopo de uma mentalidade que já estava falida, ou seja, a visão do profissional como gerenciador de acervos e disseminador da informação. É neste ponto que quero tocar na segunda parte deste post.
“(…)tem por objetivo garantir e preservar a autonomia e intelectual e estimular a colaboração e a formação de comunidades entre os cidadãos. (…)”
Gosto muito dessa visão, mas, infelizmente realmente são poucos os profissionais/discentes/acadêmicos da área de Biblioteconomia/CI que enxergam as coisas dessa maneira.
Semana passado ouvi um colega reclamando que o curso de biblioteconomia não nos forma com qualificação o suficiente pra trabalhar em bibliotecas. Minha resposta foi quase que automática: “se num forma pra isso, forma pra quê?” Afinal, pra ser esse pós-bibliotecario é que não é….
A verdade é que a técnica tem sido sobre-valorizada. Hoje nas escolas de biblioteconomia até se estuda “ferramentas 2.0″ (wikis, redes sociais, CMSs, blogs, etc…) mas pouco se discute qual o REAL papel do “profissional da informação” (?) nisso tudo.
Minha percepção é que os alunos não estão realmente dispostos a pensar nisso. Chegar na “essência” é uma aventura para poucos. A maioria fica na “forma”.
Abraços Fabiano. E não deixe de escrever no seu Blog, suas idéias são sempre inspiradoras!
A biblioteconomia se perdeu e continua perdida. O que Bruno falou é verdade, os cursos de biblio não formam nem pra uma coisa nem pra outra. Tá tudo dominado por teorias fajutas e especializações em qualquercoisa da informação. Mais uma vez, digo isso pq o fazer do bibliotecário foi desenvolvido na prática e não na academia, é a prática que vai determinar esse novo profissional.
Pois é, depois de uma avalanche de tecnologias e fácil acesso a diversas informações fica difícil identificar ou exigir que existam intermediadores nesse cenário. Quem precisa de animadores? De qualquer forma concordo com a última frase do Gustavo
Fabiano,
Muito interessante a sua reflexão. Ela nos traz uma série de pontos de partida para pensarmos sobre a biblioteconomia e o fazer bibliotecário ou pós-bibliotecário, como você assinalou. Dentre estes, gostaria de refletir sobre o “pós-bibliotecário”. A minha questão é por que “pós-bibliotecário”? Conforme o que você colocou:
“É um profissional que percebeu que as Bibliotecas são apenas um meio, uma instituição importante que tem por objetivo garantir e preservar a autonomia e intelectual e estimular a colaboração e a formação de comunidades entre os cidadãos.”
Bem, mas esta não seria uma definição para o bibliotecário? Pelo menos foi isso que aprendi ao longo de minha formação. Talvez estejamos diante de um campo de disputas no qual temos a co-existência de distintas concepções do fazer bibliotecário e em que determinadas concepções têm mais “ibope” ou encontram maior ressonância do que outras. Lendo o seu texto me recordei de um debate (que frquentemente se faz presente na literatura da área) que aponta, de um lado, os bibliotecários que centram suas atividades nos livros ou documentos (que parecem ser a maioria) e aqueles outros que colocam o usuário como central. Ou seja, uma das perguntas que surgiu da leitura de sua reflexão é se você estava apontando para: uma nova postura do profissional? Uma nova postura profissional? Um novo profissional? Ou para um determinada “postura” que vem sendo construída ao longo do tempo, mas que por “n” fatores tem sido preterida? Falar em “pós – qualquer coisa” me remete a mais uma grande etiqueta e a um debate sem fim, tal como aquele dos modernos, pós-modernos e dos “jamais fomos modernos”.
Enfim, penso que você coloca pontos importantes, ao menos pontos que me levaram na direção de algumas reflexões e a pensar juntamente contigo no futuro (e no passado e presente também), mas não somente no do bibliotecário sem os livros impressos, mas no do bibliotecário como intermediário, como mediador…
Você tem razão Alberto e gostei da sua colocação das duas posturas, a centrada nos livros e documentos de um lado e a que coloca os usuários como figuras centrais do outro lado.
O pós-bibliotecário foi uma palavra que utilizei para chamar a atenção de que a cultura biblioteconomica nacional concentra-se em livros e documentos de um lado (processamento técnico), e na gestão de bibliotecas (unidades de informação) do outro. E que este pós-bibliotecário seria uma espécie de bibliotecário clássico reinventado, se não existissem livros impressos. Então o título do post serviu como um gancho para iniciarmos uma conversação aqui, antes de eu escrever a segunda parte do post.
Fiquei bastante tempo com conversações deste nível com o pessoal da ExtraLibris trocando e-mails e toquei-me que por não ter tempo de escrever posts mais elaborados, estava deixando de trazer estas excelentes conversações para o blog.
Gustavo, a prática mesmo que acaba dando corpo ao profissional. O que eu sempre senti falta em eventos de estudantes na área era a presença de profissionais bibliotecários realizando apresentações sobre as suas realidades profissionais – como contraponto a apresentações políticas, culturais e teóricas realizadas pelos pesquisadores em CI.