Quem não lê bem, não pensa bem

by Fabiano Caruso on maio 26, 2007

As vezes escrevo muito sobre questões relacionadas a recursos de informação, biblioteconomia, etc. Mas duvido que uma pessoa que apenas lê livros e acompanha as novidades da sua área de atuação vá se tornar um bom profissional ou pesquisador – no máximo um técnico burocrata (todos os técnicos burocratas deveriam ser terceirizados).

É importante que se leia boa literatura, seja ficção, não ficção, obras de referências, biografias, etc. Mas como encontrar boa literatura? Procure através das pessoas criativas e inovadoras. Descubra os que grandes talentos lêem. O que um prêmio nobel costuma ler? O que um grande nome na minha área já leu?

Outra fonte interessante são os bons jornalistas culturais e científicos. Os únicos cadernos que costumava ler em jornais eram os relacionados a estes dois tópicos.

Jamais leia com uma preocupação utilitária. As pessoas que lêem achando que os livros tem algo a ensinar procuram livros de auto-ajuda. E estes livros não ensinam nada. A única coisa que nos ensina nesta vida e a nossa experiência cotidiana com outras pessoas. A boa literatura apenas multiplica a nossa percepção. Não nos torna pessoas melhores.

Caso pudesse oferecer um conselho relacionado a leitura para um grupo de recêm graduandos que provavelmente ficarão pelo menos quatro anos em uma universidade seria o seguinte:

- dedique os dois primeiros anos do seu curso a leitura de livros clássicos, tanto da sua área de atuação quanto fora dela. Leia muito, todos os teóricos mais citados, os livros indicados por pessoas interessantes, etc.

- dedique os últimos anos da sua graduação a conhecer coisas novas, tente falsear tudo o que você leu até agora. Busque teóricos emergentes, temas instigantes, e acompanhe as conversações e informação corrente (em blogs e social bookmarks).

O mais importante, conhecimento não é acúmulo, é descarte. Quem acumula informações esparças sobre diversos tópicos é um erudito. Deixe para optar por tornar-se um edudito quando você tiver uns cinquenta anos de idade por favor, antes disso, viva um pouco a vida. Ninguém suporta uma pessoa que almeja ser um erudito aos vinte e um anos de idade e se orgulha de ler dez livros por semana.

Uma coisa importante é aprender a avaliar bem o que se lê. Um pouco acima comentei que para selecionar boas leituras era importante seguir indicações de especialistas. Mas o mais importante é antes de tudo se desenvolver um senso crítico e estético em relação ao que se está lendo. E isso se aprende com uma boa gestão da imaginação (prática filosófica).

Um dos meus mestres neste sentido foi Popper:
Popper admitiu, porém, que não há em ciência método, confessando-se “professor de um assunto inexistente”. De facto, o inglês Peter Medawar, um Prémio Nobel da Medicina defensor e divulgador das ideias de Popper, chamou à ciência “a arte do solúvel”, enfatizando o papel da criatividade pessoal, que parece por vezes extravasar os limites colocadas por qualquer metodologia da ciência e que só encontra paralelo nos processos de produção artística. Embora possa não existir o método científico como chave universal que abre infalivelmente as portas do desconhecido, talvez se possam descobrir traços comuns do trabalho dos cientistas, esses permanentes acrescentadores do conhecimento sobre o mundo. O reconhecimento do erro pela crítica e pela experimentação é, segundo Popper e os popperianos, uma dessas marcas. Localizar o erro e aprender com ele são propósitos permanentes de quem trabalha nos institutos e laboratórios de ciência… Só um cientista pode ficar feliz ao descobrir que, afinal, tinha ideias erradas. (fonte: Um filósofo sem razão – De Rerum Natura).

Este modelo é aplicável em qualquer atividade intelectual criativa, não apenas na produção da ciência.

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