Educação 2.0: o que é mais importante a se fazer na universidade hoje?

Acabei de ler um artigo super interessante da Penelope Trunk, intitulado: Education 2.0: What’s most important to do in college today?, que conduziu-me a outras leituras interessantes. Ela tem levantado questões importantes sobre os valores e comportamento dos Millennials.

Durante o curso de graduação, não possuia a quantidade de informações que tenho hoje para demonstrar a importância de um modelo de aprendizagem que pudesse favorecer o aprendizado ao longo da vida. Acredito que o maior desafio de hoje é o de poder equilibrar a importância da educação formal, com a aprendizagem informal e em rede. Mas em nosso país a educação formal é superistimada – o que tem gerado uma dinâmica infeliz mercantilização de diplomas e banalização do ensino. Um mercado cheio de profissionais imbecís com diplomas de mestrado e doutorado.

Então, como presidente do centro acadêmico, busquei centrar minhas iniciativas em dois sentidos: melhorar a qualidade de pesquisa dos estudantes, e incentivar uma mentalidade empreendedora, ambas focadas na solução de problemas. Na época, a minha sugestão como membro da comissão para o projeto político pedagógico do curso de Biblioteconomia da UFSC, era algum tipo de programa que permitisse disciplinas abertas e flexíveis. Em que estudantes de diversas fases poderiam encontra-se baseados em interesses em comum, para discutir e apresentar seminários sobre tópicos emergentes no campo. Isso ofereceria a oportunidade aos estudantes, em poder assimilar algumas tendências – sem necessáriamente precisar esperar por anos, para depois de sair alguma tese de doutorado sobre o assunto, pudessem ter alguma aula. Como a produção em nosso campo em outros países é super abrangente, teriamos oportunidade de conhecer e compartilhar novos tópicos.

O que eu ouví na época é que o perfíl dos estudantes não colaborava, e que eu estava buscando uma graduação adequada ao meu perfíl, e não pensando no perfíl dos alunos. Ou seja, foi muito complicado competir com a mentalidade de que a graduação é uma espécie de cursinho preparatório para concursos públicos. De um lado para preparar para concursos em bibliotecas, e do outro para concursos para a pós-graduação.

Como crescí em bibliotecas e utilizando a internet para pesquisas, sempre tive uma percepção sobre o valor da aprendizagem em informal e em rede, como complementação fundamental a aprendizagem formal em sala de aula. Mas visualizo hoje em algumas disciplinas do curso de graduação, o pior dos mundos possíveis para o processo de aprendizagem.

Alguns professores simplesmente não dão mais aulas mais aulas, passam artigos para que estudantes possam ler, fazer trabalhos, e depois apresentar para o resto da turma. O que para mim representa a corrupção dos valores da aprendizagem informal, transvertidos com um apelo a autoridade. O resultado disso é que os estudantes ficam sobrecarregados de trabalhos para fazer, e não tem tempo para fazer mais nada. E os mais espertos aproveitam-se dos tolos, que fazem trabalhos e colocam os nomes deles. Ou então, os grupos criam dinâmicas de compartilhamento de trabalhos. Ou seja, de um grupo de quatro alunos, dois fazem o trabalho de um professor, e outros dois fazem o trabalho de outro, e depois eles dividem os nomes nas capas dos trabalhos.

Que os estudantes desenvolvam autonomia de pesquisa, consigam trabalhar em grupo, e etc, é fundamental. Mas é preciso alcançar um certo equilíbrio entre a importância da educação formal, do papel do professor como capaz de conduzí-los ao conhecimento da melhor forma. Mas, que os estudantes tenham tempo para complementar o que foi-lhes apresentado em sala de aula, e que possam por conta própria buscar informações e associar-se com outros estudantes baseados em interesses em comum.

Para que pudesse aprender durante a minha graduação o que considerava importante, precisei abandonar a idéia de que um índice acadêmico alto é importante. E por conta própria, comecei a orientar minhas leituras. Sabia que a graduação é apenas burocracia intelectual que confere a pessoa uma titulação – que na verdade diz muita pouca coisa sobre a pessoa.

Foi devido aos problemas em relação a aprendizagem que idealizei a ExtraLibris. Enviei um convite aberto por e-mail para algumas listas de discussão, convidando pessoas interessadas em conversar sobre biblioteconomia, discutir tendências, trocar artigos, etc. Não escolhí a dedo pessoas que achava que pensava como eu. O resultado foi o encontro de pessoas com ideias distintas sobre diversos tópicos. Pessoas que provavelmente, em uma sala de aula nunca se gostariam, mas em rede, nos respeitamos com estudantes, pesquisadores, intelectuais e profissionais independentes. Foi onde mais aprendí, esta é a educação do futuro.