Cuidando do Seu Introvertido

Os hábitos e necessidades de um grupo pouco compreendido
por Jonathan Rauch

Você conhece alguém que precisa de horas sozinhas todo dia? Quem ama conversações tranqüilas sobre sensações ou idéias, e pode fazer uma apresentação explosiva para um grande público, mas parece desajeitado em grupos e desastrado com a pequena conversação? Que tem de ser arrastado para festas e depois precisa do resto do dia para recuperar-se? Que rosna ou faz carranca ou grunhe ou estremece quando abordado com a jovialidade por pessoas que estão tentando apenas ser legais?

Nesse caso você diz a esta pessoa que ele é “demasiado sério,” ou pergunta se ele está bem? Considerando-o como afastado, arrogante, grosseiro? E redobra os seus esforços para tirá-lo desta?

Se você respondeu sim a essas perguntas, a possibilidade é que você tenha um introvertivo em suas mãos – e que você não está cuidando dele apropriadamente. A ciência aprendeu muito nos últimos anos sobre os hábitos e as exigências dos introvertidos. Ela até aprendeu, por meio de exames cerebrais, que os introvertidos processam a informação de forma diferente de outras pessoas (não defendendo isto). Se você se sente como parte deste assunto importante, fique seguro de que você não está sozinho. Os introvertidos podem ser comuns, mas eles estão também entre os grupos mais mal compreendidos e aflitos da América, e possivelmente do mundo.

Eu sei. O meu nome é Jonathan, e sou um introvertido.

Oh, por anos neguei isso. E ainda por cima, tenho boas habilidades sociais. Não sou sombrio ou misantrópico. Normalmente. Sou longe de ser tímido. Amo conversações longas que exploram pensamentos íntimos ou interesses apaixonados. Mas finalmente me auto-identifiquei e revelei-me para os meus amigos e colegas. E fazedo isso, encontrei-me libertado de qualquer número de concepções errôneas prejudiciais e estereótipos. Agora devo dizer-lhe aqui o que você tem de saber para contar de forma sensível e embasada para os seus próprios membros de família introvertidos, amigos, e colegas. Relembrando, para quem você conhece, respeita, e interage dia a dia que é introvertido, e que você provavelmente está levando esta pessoa a loucura. E que ela pagaria para aprender a perceber os sinais de aviso.

O que é a introversão? No seu sentido moderno, o conceito remonta aos anos 1920 e o psicólogo Carl Jung. Hoje ele é um referencial para os testes de personalidade, inclusive o Indicador de tipo Myers-Briggs largamente usado. Os introvertidos não necessariamente são tímidos. As pessoas tímidas preocupam-se ou ficam assustadas com a auto-exposição em ambientes sociais; os introvertidos geralmente não o são. Os introvertidos não são também misantrópicos, embora alguns de nós realmente concordam com Sartre quando diz que “o Inferno são as outras pessoas no café da manhã.” Melhor, os introvertidos são pessoas que consideram as outras pessoas cansativas.

Os extrovertidos são energizados pelas pessoas, e murcham ou desbotam-se quando encontram-se sozinhos. Eles muitas vezes cansam de sí mesmos, em ambos os sentidos da expressão. Deixe um extrovertido em paz durante dois minutos e ele buscará o seu telefone celular. Em contraste, depois de um ou duas horas interagindo socialmente, os introvertidos sentem a necessidade de desligar e recarregar. Minha fórmula pessoal é de forma rude, passar duas horas sozinhos para cada hora da socialização. Isto não é anti-social. Também não é um sinal da depressão. Também não pede por medicação. Para introvertidos, estar a sós com os seus pensamentos é tão revigorante como o sono, como ser nutrindo com comida. O nosso lema é: “o meu okey, é o seu okey – em pequenas doses.”

Quantas pessoas são introvertidos? Eu fiz uma pesquisa exaustiva com esta pergunta, na forma de uma pesquisa rápida no Google. A resposta: aproximadamente 25 por cento. Ou: Justamente um quarto. Ou – meu favorito – “uma minoria na população regular mas uma maioria na população dotada.”

Os introvertidos são mal compreendidos? De forma selvagem. E, aparentemente, por toda a sua vida. “É muito difícil para um extrovertido entender um introvertido,” escrevem os peritos de educação Jill D. Burruss e Lisa Kaenzig. (Eles são também a origem da frase no parágrafo anterior.) os Extrovertidos são fáceis para introvertidos compreender, porque os extrovertidos gastam muito do seu tempo realizando atividades em que eles estão envolvidos – e freqüentemente de forma inescapável – a interação com outras pessoas. Eles são tão inescrutáveis como filhotinhos de cachorro. Mas a rua não corre em duas vias. Os extrovertidos têm muito pouco ou nenhum sinal de introversão. Eles assumem que qualquer companhia, especialmente a sua própria, é sempre bem-vinda. Eles não conseguem imaginar por que alguém precisa estar sozinho; de fato, eles muitas vezes tomam como uma ofensa esta sugestão. A geralmente, como eu muitas vezes tentei explicar este assunto para os extrovertidos, nunca sentí que qualquer um deles tenha realmente compreendido. Eles escutam por um momento e logo voltam para o seu latido e agitação.

Os introvertidos são oprimidos? Eu teria de dizer assim. Em primeiro lugar, os extrovertidos são extremamente representados na política, profissão na qual só os gárrulos estão realmente confortáveis. Dê uma olhada em George W. Bush. Olhe para Bill Clinton. Eles parecem apenas vindo cheios de vida apenas próximos de outras pessoas. Para pensar nos poucos introvertidos que realmente subiram ao topo na política – Calvin Coolidge, Richard Nixon – isso merecidamente nos leva ao ponto. Com a possível exceção de Ronald Reagan, cuja indiferença fabulosa ao privado foi provavelmente um dos sinais de um perfíl introvertido profundo (muitos atores, li, são introvertidos, e muitos introvertidos, socializando, sentem-se como atores), os introvertidos não são considerados “naturais” na política.

Os extrovertidos, por isso, dominam a vida pública. Isto é lamentável. Se introvertemos comandassem o mundo, não há dúvida de que ele seria mais calmo, são, e algum tipo de lugar mais pacífico. Como supõe-se que Coolidge tenha dito, “Você não percebe que grande parte de de todos os nossos problemas e preocupações nesta vida desapareceriam se simplesmente nos sentassemos e ficassemos parados” (Também supoe-se que ele tenha dito, “Se você não disser nada, você não será convidado repeti-lo.” A única coisa da que um introvertido verdadeiro gosta menos do que falar é ficar se repetindo.)

Com o seu apetite infinito para a conversação e atenção, os extrovertidos também dominam a vida social, portanto eles tendem a definir expectativas. Na nossa sociedade extrovertida, ser expansivo é considerado considerado normal e por isso desejável, uma marca de felicidade, confiança, liderança. Os extrovertidos são vistos como generosos, vibrante, quente, empáticos. “Uma pessoa da gente” é um cumprimento. Os introvertidos são descritos com palavras como “taciturno”, “pessoa solitária”, “reservada”, “privada” – palavras estreitas, mesquinhas, palavras que sugerem a parcimônia emocional e a pequenez da personalidade. Os introvertidos femininos, suspeito, devem sofrer especialmente. Em certos círculos, em particular no Meio-oeste, um homem ainda pode escapar às vezes como sendo o que eles costumam caracterizar como um tipo forte e silencioso; as mulheres introvertidas, necessitando daquela alternativa, são muito mais provavelmente do que homens percebidas como tímidas, retiradas, arrogantes.

Os introvertidos são arrogantes? Intensamente. Suponho que esta concepção errônea comum tem a ver com que somos mais inteligentes, mais refletivos, mais independentes, mais dotados de bom senso, mais refinados, e mais sensíveis do que extrovertidos. Também, é provavelmente devido à nossa falta da pequena conversação, uma falta que os extrovertidos muitas vezes confundem para o desdém. Tendemos a pensar antes da fala, ao passo que os extrovertidos tendem a pensar falando, que é por que as suas reuniões nunca duram menos de seis horas. “Introvertidos”, escreve um colega perceptivo chamado Thomas P. Crouser, em uma resenha online sobre um livro recente chamado “Por Que os Extrovertidos devem Fazer Todo o Dinheiro?” (Não estou defendendo isso, ainda), “são orientados para a distração por um diálogo semi-interno que os extrovertidos tentem a conduzir. Os introvertidos não se queixam externamente, em vez disso rolam os seus olhos e silenciosamente xingam a escuridão.” Apenas isso.

O pior disso tudo é que os extrovertidos não têm nenhuma idéia do tormento que eles nos causam. Às vezes, como desejamos tomar um ar de dentro do nevoeiro da 98-por cento- de conversação-gratuita, nos maravilhamos como os extrovertidos nunca se cansam de escutar a sí mesmos. Entretanto, duramos estoicamente, principalmente por causa da etiqueta – escrita nos livros, sem dúvida, pelos extrovertidos – que recusar uma conversação e um gracejo, é grosseiro. Só podemos sonhar que um dia, quando a nossa condição for mais largamente entendida, quando possivelmente um movimento de Direitos de Introvertidos florescer e render frutos, que não será indelicado dizer “sou introvertido. Você é uma pessoa maravilhosa, e eu gosto muito de você. Mas por favor, fique em silêncio agora.”

Como posso deixar o introvertido na minha vida saber que o apoio e respeito a sua escolha? Primeiro, reconheça que ele não tem uma escolha. Ele não é um estilo de vida. Ele é uma orientação.

Em segundo lugar, quando você percebe que um introvertido está perdido em seus pensamentos, não fale “O que está acontecendo?” ou “Está tudo bem contigo?”

Em terceiro lugar, não diga mais nada, também.

Tradução: Fabiano Caruso
Qualquer sugestão e correção a minha tradução amadora e corrida, será bem vinda.

Original publicado por The Atlantic Monthly Group, disponível em: Caring for Your Introvert. Encontrado via: Feld Thoughts.

ATUALIZAÇÃO EM 12/05/2012

Sobre os introvertidos, confiram esta apresentação no TED: O poder dos introvertidos

E esta matéria da Folha de São Paulo sobre o livro da mesma autora: O poder dos quietos