A Miséria do Marketing em Biblioteconomia
Publicado por Fabiano Caruso | Arquivado em Biblioteconomia
Algumas teorias defendem que existe uma relação direta entra a Ciência da Informação e a Biblioteconomia. Evidente que sim, mas depende do tipo de pesquisa praticado pela Ciência da Informação. A Biblioteconomia não pode ser definida através de um perfíl - como muitos tentam - mas através de diversos perfís de atuação e competências complementares, orientados para o desenvolvimento de Serviços de Informação.
No entanto a formação tradicional é baseada no conceito de profissional como Gestor de Unidades de Informação. O conceito de unidades de informação não é um conceito teórico, mas um conceito de marketing, pois é baseado na relação entre as competências dos profissionais e as necessidades dos usuários. Particularmente não gosto deste conceito pois acaba centrado em uma dinâmica vertical de prestação de serviços. Quando a mina de ouro do campo está justamente em tópicos relacionados a consultoria tanto para o desenvolvimento de serviços de informação, quanto para a competência informacional - que é o que irá perdurar para quando dentro de algumas décadas todas as bibliotecas tradicionais forem extintas.
Voltando um pouco ao tópico inovação, pensemos apenas um pouco no tópico estudo de usuários. Os estudos de usuários realizados muitas vezes para as bibliotecas e unidades de informação não são feitos para que se possa compreender as necessidades de tais usuários. Servindo desta forma como base para o desenvolvimento de serviços. Mas sim, em como sustentar, ou demonstrar que os serviços que a unidade tem para oferecer são relevantes. Poderiamos tentar visualizar a atitudade de um profissional da seguinte forma: toda a sua formação foi orientada sobre a importância das fábricas de fazer refresco. Então, quando finalmente começam a trabalhar em uma destas fábricas, fazem um estudo para saber qual é o sabor de refresco ou como os usuários desejam que ele seja servido - sendo que nenhum usuário está lá muito interessado em refrescos, mas eles respondem a pesquisa por educação ou com pena do pesquisador.
Na minha experiência profissional fui trabalhar em uma biblioteca institucional. No entando a função deste local era servir de acervo permanente para os livros menos interessantes. Porque os livros mais relevantes e que tinham mais acesso ficavam alocados nas mesas das pessoas para uso particular, ou então na biblioteca de obras selecionadas da diretoria. Um profissional clássico iria começar a se preocupar com: poxa, eu quero que a biblioteca seja visitada, preciso ser valorizado! Porque na mentalidade baseada no profissional como “gestor de unidades de informação” o que ele pensa que o qualifica não é a qualidade dos serviços que ele presta ou desenvolve, mas o poder que ele exerce sobre a biblioteca e a forma que ele tenta ao máximo criar uma dependência dos usuários em relação aos seus serviços (o maravilhoso mediador da informação). Então quando o profissional burocrata não consegue este nível de poder, ele resolve apelar a outros tipos de artifício como o de trabalhar com a normalização de trabalhos segundo as normas técnicas da abnt. Ou até, se ele tiver alguns conhecimentos básicos de webdesign, vai querer inventar uma página com uma linda listagem de bases de dados, fontes de informação selecionadas segundo os critérios mais relevantes e de confiança.
Mas existe uma área segura em que os profissionais não precisam se preocupar com as necessidades dos usuários. Tampouco em aprender e olhar um pouco para o universo a sua volta. Um campo de atuação em que todos os seus procedimentos técnicos defasados e a sua orientação de serviços focados para a idolatria da unidade de inforamação está seguro. É para este paraíso confortável que a maioria está querendo ir. O santo graal da biblioteconomia. Eles caem em lágrimas emocionados quando conseguem tal realização. Chama-se: passar em concurso público.


14 de fevereiro de 2007 at 9:16 pm
As vezes eu leio para o que escrevo e penso:
cara, você é chato mesmo, mas tem dias em que está insuportável.
4 de março de 2007 at 10:24 pm
Gostei muito do que li aqui.
28 de abril de 2008 at 2:42 pm
As vezes me empressiono com tamanha semelhança entre as suas idéias e as minhas.Foi justamente acerca disso que eu comentei com um colega de classe na semana passada.Luto para que não me reste como única alterantiva os concursos públicos.Na contramão da maioria dos estudantes de biblioteconomia, não quero o serviço público como ambiente de trabalho.Parabéns pelo texto.
20 de dezembro de 2008 at 11:40 pm
BOM TEXTO! MESMO QUE ACHAM CHATO É DE TAMANHA VERDADE SEU ULTIMO PARAGRAFO E A COMPARAÇÃO COM SANTO GRAAL FOI DIGNISSIMA DE APLAUSO!